enviesado
Sei que provavelmente aborreço todos vocês com as minhas constantes mudanças de humor, estas que levam-me a criar vez que sempre outros blogues, como este, sem qualquer razão ou finalidade que não, quem sabe, a de me fazer escolher um novo template ou um novo título. Estou a ponto de perder a conta das páginas que tenho por aí, mas ao receber hoje um e-mail do amigo Diego Barreto Ivo notei, ó, que é preciso honrar o bom lar que a sorte me concedeu; não dou-me ao trabalho de dar nada por encerrado, nem este nem outros endereços que porventura criei; deixo-os presos ao porto e volto à proa do Sententia - pois é preciso molhar os pés.

L’expérience intérieure
Enquanto preenchia sua xícara com o chá, preparado minutos antes com folhas de Camellia sinensis, fez uma pequena mesura e disse, com delicada afeição:
– Talvez você devesse relacionar-se mais e mais abertamente; esses trejeitos vitorianos a nada podem levar senão a esse furor reprimido, ave de rapina sem garras. A minha sugestão é que se encontre com outras pessoas, que mantenha, como dizer?, contato com mais homens, um, dois ou três – ao mesmo tempo, digo. Creio poder ajudar-lhe nesse sentido.
– Você é mesmo um cavalheiro, não é?
– Às suas ordens.
“era uma coisa que adorava acontecer”
A única desvantagem da futilidade é ser fútil, porque, salvo isto, a coisa toda tem um charme desgraçado.
Blogues são um bom exemplo disso. Memes, idem. Tanto que o estimado Cleber Corrêa, que há poucos meses reclamava de um meme que eu lhe havia passado, acaba de iniciar um desses sobre literatura, do qual nos inclinamos, eu e a minha insônia, a participar.
Devo citar as minha últimas linhas favoritas e, idéia do Sr. Corrêa, omitir o nome do autor para que sejais este por vós descoberto - claro está que os bastardos farão uso do google, no entanto os bastardos são bem-vindos. Minhas últimas linhas, as diletas, são:
Se só tens riso, ri-te! É a mesma coisa. O Cruzeiro, que a linda Sofia não quis fitar, como lhe pedia Rubião, está assaz alto para não discernir os risos e as lágrimas dos homens.
Afastou o cinzeiro e os cigarros, depois retirou a colcha de algodão da cama onde estivera sentada, descalçou os chinelos e meteu-se na cama. Durante alguns minutos, antes de cair no sono, num profundo sono sem sonhos, ela se manteve imóvel, sorrindo para o teto.
E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado.
Aproximou-se de mim para que eu lhe ensinasse os prazeres da vida e da arte. Talvez eu tenha sido escolhido para ensinar-lhe algo bem mais maravilhoso - o significado do sofrimento e toda a sua beleza.
– Poderíamos ter sido tão felizes juntos!
Diante de nós, um policial em uniforme cáqui, a cavalo, dirigia o tráfego. Ergueu o bastão. O carro diminuiu a marcha, bruscamente, atirando Brett de encontro a mim.
– Sim - disse eu. — É sempre agradável pensar nisso.
O inconveniente do reino da opinião, que de resto traz a liberdade, é imicuir-se no que não lhe diz respeito, por exemplo, na vida privada. Daí a tristeza da América e da Inglaterra. Para não tocar na vida privada, o autor invetou uma cidadezinha, Verrière, e, quando precisou de um bispo, de um júri, de um tribunal, situou tudo isso em Beçanson, onde nunca esteve.
Aí estão; algumas óbvias demais que, todavia, aqui, cumprem o papel essencial: agradar-me.
Uma relação em que há demasiado amor é a mesma em que há demasiada escatologia.
profanum vulgus
Não ouso sempre travar conversa com estranhos dentro, ou mesmo fora, de veículos do transporte urbano. Sou do tipo que acha que uma conversa é, no mais das vezes, um desperdício de si mesmo; entretanto, por esses dias, aconteceu de eu ser perguntado acerca de um assunto de meu interesse, a literatura. Ademais, quando se é perguntado, por uma questão de boa educação, deve-se responder, nem que seja com um aceno de cabeça.
Era um senhor, estava sentado ao pé de mim e, desde que o notei, lia algo com displicente desatenção, olhando a todo instante para os lados, especialmente para onde eu me encontrava. A certa altura, pareceu-me, ele perdeu a calma e, ansioso, tocou-me o braço a fim de chamar a minha atenção. Com alguma simpatia, alinhei aos dele os meus olhos apertados, como quem, sem dizer palavra, aceita o convite à tola conversação.
Tinha um hálito de caverna o senhor. Felizmente, falou pouco. Fez uma pergunta muito simples, do tipo que eu faria a um qualquer se fosse mais sociável. Apontando-me o título do livro, que eu tenho uma vaga idéia de já lido por aí, perguntou-me se eu já o havia lido. Nesse ponto, o estranho parecia inclinar-se cada vez mais diante do meu rosto, dos meus olhos, de maneira a exibir imensurável interesse, o que não fazia qualquer sentido. Eu disse que não.
Ante a minha negativa, exortou: “Pois deveria ler, quem sabe assim você passa a reconhecer as pessoas que já cuidaram de você, com quem por tanto tempo conviveu.”
O título do livro era “As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu” ou coisa assim. Não li, nem pretendo, posto que seja no mínimo um desses de auto-amparo. Quanto ao senhor, ainda hoje não faço idéia de quem se tratava. Ou eu não entendi a piada.
Cheville

Há muito tenho vivido à espera de sutis mudanças em certos aspectos de minha personalidade. Não trato de coisas práticas, mas de outras, um tanto mais sutis. À sombra da infância é vulgar acometer-nos a todos aquela idéia – hoje sei, um tanto vaga – que tão constantemente acometeu-me e inda hoje se faz viva: a idéia de que adaptar-nos-emos ao mundo à medida que abandonarmos quaisquer hábitos contrários ao intento.
Ora, o máximo que se pode alcançar é a aceitação desta vida que aí está; é à constatação de nossa própria impotência que nos adaptamos, e o mais são variações de um tema já gasto, ainda que sólido. De minha parte posso dizê-lo: possivelmente chegarei à velhice a esperar que o pós-vida traga-me as transformações pelas quais aguardo sem que eu tenha jamais entendido como agora entendo, ou pelo menos imagino, a insondável distância que há entre simples traços de personalidade e aquelas indisfarçáveis maneiras, qual ervas daninhas, encravadas no espírito.
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Olá. Não vou dizer, ainda, que encerrei o Sententia, mas considerem-no em quarentena por tempo indeterminado. Aqueles spams aborreceram-me e, como eles são muitos e é pouca a minha paciência, volto agora ao wordpress.
Após uns bons dias sem nada postar, tentarei manter a freqüência dantes – ou eu não sei aonde me levará todo este enfado. Freqüentei nos últimos dias Evelyn Waugh; além do essencial Brideshead Revisited, li também Decline and Fall – um livro leve, cômico e elegante. Passei por mais Chesterton e tentei Joyce – lá pela página 100 cessei a leitura em respeito ao senhor Stephen Dedalus e trupe; não me estava a dedicar inteiramente, de maneira que o melhor a fazer é, quando possível, trancar-me num retiro espiritual a fim de ler este Ulysses.
Venho agorinha de uma livraria. Aqui ao lado está aberta uma página na qual leio:
Em 1913, quando Anthony Patch chegou aos 25, dois anos já se haviam passado desde que a ironia, o Espírito Santo da época, descera, pelos menos teoricamente, sobre ele. A ironia foi o brilho final no sapato, a última escovadela na roupa, uma espécie de “pronto!” intelectual.
Trata-se de Fitzgerald em The Beautiful and Damned – ou Belos e Malditos, um título que soa bem em português.
O resto é um silêncio oscilante.