profanum vulgus
Não ouso sempre travar conversa com estranhos dentro, ou mesmo fora, de veículos do transporte urbano. Sou do tipo que acha que uma conversa é, no mais das vezes, um desperdício de si mesmo; entretanto, por esses dias, aconteceu de eu ser perguntado acerca de um assunto de meu interesse, a literatura. Ademais, quando se é perguntado, por uma questão de boa educação, deve-se responder, nem que seja com um aceno de cabeça.
Era um senhor, estava sentado ao pé de mim e, desde que o notei, lia algo com displicente desatenção, olhando a todo instante para os lados, especialmente para onde eu me encontrava. A certa altura, pareceu-me, ele perdeu a calma e, ansioso, tocou-me o braço a fim de chamar a minha atenção. Com alguma simpatia, alinhei aos dele os meus olhos apertados, como quem, sem dizer palavra, aceita o convite à tola conversação.
Tinha um hálito de caverna o senhor. Felizmente, falou pouco. Fez uma pergunta muito simples, do tipo que eu faria a um qualquer se fosse mais sociável. Apontando-me o título do livro, que eu tenho uma vaga idéia de já lido por aí, perguntou-me se eu já o havia lido. Nesse ponto, o estranho parecia inclinar-se cada vez mais diante do meu rosto, dos meus olhos, de maneira a exibir imensurável interesse, o que não fazia qualquer sentido. Eu disse que não.
Ante a minha negativa, exortou: “Pois deveria ler, quem sabe assim você passa a reconhecer as pessoas que já cuidaram de você, com quem por tanto tempo conviveu.”
O título do livro era “As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu” ou coisa assim. Não li, nem pretendo, posto que seja no mínimo um desses de auto-amparo. Quanto ao senhor, ainda hoje não faço idéia de quem se tratava. Ou eu não entendi a piada.
Ou não fosse piada. Detesto esses joguinhos de gente que nem nos conhece e já vem impondo duas teorias, nos fazendo pensar por sua linha de raciocínio.
E daí, reconhecer quem cuidou de você? Se tivesse convivido por tanto tempo e tido de fato tanto cuidado, seria possível não reconhecer?
Talvez ele se tenha em muito mais alta conta do que deveria.
Também não suporto mais as pessoas me incitarem a ler “O Segredo”. Não, obrigada. Prefiro ler coisas menos importantes e sérias e espirituais. Prefiro ler livros, mesmo.
Badá
Abril 10, 2008 em 12:18 pm
aposto q não era seu dentista.
Scratch
Abril 10, 2008 em 4:20 pm
Minha teoria é que o senhor me tomou por outra pessoa; eu até que tenho boa memória.
Agora, esse O Segredo ¬¬’
Oi, Scratch. Andou sumida.
Abraços.
ed
Abril 10, 2008 em 8:37 pm
Ed. Que troca de blog. Muda pro blog mais indie o zip do uol. :P
Vão censurar wordpress? Você vai acabar parando no blig.
abrazoz
Caiocito
Abril 11, 2008 em 2:03 pm
Também acho super educado responder. Queria conseguir dizer “bom dia, boa tarde, boa noite” para todas as pessoas com quem cruzo, mas ainda não consigo, fico com medo de me acharem simpática demais.
E as pessoas as vezes, inexplicavelmente sentem vontade de falar algo, assim como esse senhor. acho que é alguma serotonina.
Srta. Bia
Abril 12, 2008 em 2:23 pm
Ed, seja lá quem for, esqueça. Este senhor agora lê As 5 Pessoas…, imagina os outros que você nem desconfia – O Segredo deve ser o melhor deles. Mas acho que tem razão: provavelmente ele o confundiu com outra pessoa. Imagino que ele faça isso todo dia.
Marcelo Lopes
Abril 12, 2008 em 11:23 pm
será que ele era seu avô? rs
Lia Winter
Abril 14, 2008 em 1:50 am
Não creio, Lia :-) Ou eu estaria mesmo com a memória aos frangalhos. E olá.
Ed
Abril 14, 2008 em 3:08 am